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O que é a Cistite Intersticial (CI) e a Síndrome da Dor
Vesical?
É uma doença
crónica dolorosa, adquirida durante a vida e que atinge a
bexiga. Não é possível precisar quantas pessoas estão
afectadas por esta doença, estimando-se que haja 1,2 a 4,5
mulheres com CI por 100 000 habitantes.
A doença é
definida por um conjunto de sintomas e sinais. Várias
sociedades médicas estabeleceram critérios para definir e
diagnosticar a CI, mas o facto de esses critérios assentarem
em sintomas descritos pelos doentes torna a sua definição
pouco precisa e controversa. A sensação de dor abaixo do
umbigo, normalmente provocada pela distensão do enchimento
da bexiga e aliviada pelo acto de urinar é a manifestação
principal. Esta pode ser acompanhada por frequência urinária
(que pode ir até 100 vezes por dia) e/ou pela sensação
crónica de necessidade imediata em urinar (urgência). A
controvérsia entre a classe médica persiste porque estes
sintomas não existem apenas nesta doença, isto é, não são
específicas da cistite intersticial. Recentemente, foi
proposto que esta doença fosse chamada de síndroma de dor vesical e que o termo “cistite intersticial” fosse apenas
utilizado para os doentes que apresentam achados típicos à
visualização do interior da bexiga (por cistoscopia) e em
biópsias da sua parede.
Há muitas
doenças que dão sintomas semelhantes à cistite intersticial
e o médico terá que efectuar exames para as excluir. Por
exemplo, a cistite bacteriana (vulgar infecção urinária)
apresenta microorganismos na urina, mas na CI não se
identificam quaisquer germens na urina.
Quais são
as causas da Cistite Intersticial/Síndrome da Dor Vesical e
como evolui?
Actualmente, a
causa da CI é desconhecida e não está provado que a doença
tenha origem na bexiga. Foram propostos vários factores
possíveis para tentar explicar o seu aparecimento:
• Causas
infecciosas e inflamatórias: as infecções agudas não parecem
poder justificar o aparecimeno da CI, mas a fibrose pode ser
uma complicação de uma infecção urinária “vulgar” ou de
repetição.
• Causas psicológicas: coincidentemente ou não, muitos dos
casos de CI surgem em mulheres com problemas depressivos ou
outros distúrbios psiquiátricos. Bowers (1958) considerou-a
uma “doença psicosomática masoquista”), mas hoje defende-se
que é uma doença real com uma causa orgânica.
• Causas vasculares: por problemas primários dos vasos
sanguíneos.
• Causas neuropáticas: por problemas dos nervos que enervam
a bexiga tornando-a demasiado sensível a estímulos.
• Causas auto-imunes: alterações do modo como o organismo
reconhece os próprios componentes.
Provavelmente, a
CI não é uma doença isolada, incluindo-se num conjunto de
doenças mais abrangente.
Uma das
hipóteses mais recentes aponta para que a causa da CI esteja
na perda da capacidade de impermeabilidade do revestimento
interno da bexiga (mucosa), o que ocorre em 70% destes
doentes. Este contacto directo dos químicos da urina
(incluindo o potássio) com as camadas da bexiga poderá ser o
responsável pelas lesões crónicas inflamatórias da sua
parede.
Há algumas
doenças crónicas que ocorrem mais frequentemente em pessoas
com CI do que na população geral, tais como: lúpus
eritematoso sistémico, doença inflamatória intestinal,
colite funcional, vulvodinia (desconforto crónico da área
genital externa da mulher), alergias, endometriose (tecido
do endométrio fora do útero) e fibromialgia.
Há dois tipos de
CI, um ulcerativo e outro não ulcerativo, dependendo dos
achados à visualização do interior da bexiga. Apenas 10% dos
doentes apresentam nas paredes da bexiga uma ulceração
típica em estrela a que os médicos chamam úlcera de Hunner.
Outras alterações típicas são as glomerulações (áreas
hemorrágicas).
A evolução da
doença pode conduzir a alterações da bexiga com
endurecimento e cicatrização das suas paredes por inflamação
crónica, resultando em última instância numa bexiga de
pequena capacidade.
Quais as
manifestações da Cistite Intersticial/Síndrome da Dor
Vesical?
A CI é mais
típica nas mulheres de meia-idade (90% dos casos) e surge,
em média, aos 40 anos.
Os doentes
referem habitualmente um aumento da frequência urinária de
dia e de noite com instalação progressiva, podendo tornar-se
severa. Porém não apresentam outros sintomas sugestivos de
infecção urinária como ardor a urinar ou urina fétida e
turva.
Cronicamente,
podem desenvolver urgência em urinar.
A principal
queixa é normalmente de dor referida à região da bexiga
(abaixo do umbigo), mas também à região da uretra ou do
períneo (área entre o ânus e a vagina ou testículos). A dor
alivia pela micção e tem de ter mais de 6 meses de evolução.
Em casos graves pode chegar a haver sangue na urina quando
há adiamento da micção e exagerada distensão da bexiga.
Algumas mulheres descrevem dor durante a relação sexual e
muitos doentes são (ou tornam-se) ansiosos.
O exame físico
do doente pelo médico pode ser normal ou apenas revelar
desconforto à palpação da área da bexiga.
Como é que a
Cistite Intersticial/Síndrome da Dor Vesical pode ser
diagnosticada?
A presença dos
sintomas referidos é fundamental. Mas como eles variam muito
de intensidade e não são específicos da CI, é necessário
excluir doenças que provoquem queixas semelhantes tais como:
infecções vaginais, doenças sexualmente transmissíveis,
inflamações crónicas da próstata (prostatites crónicas
bacterianas e não bacterianas) infecções urinárias comuns
(bacterianas), afecções da bexiga por tuberculose,
schistosomíase (um parasita tropical), cálculos urinários,
cancros da bexiga, endometriose e doenças neurológicas.
As análises
laboratoriais (colheitas de sangue, urina, secreções
prostáticas) são normais na CI mas são importantes para
excluir estas doenças enumeradas. Ultimamente, tem-se
estudado uma substância eliminada pela urina (factor
anti-proliferativo) que poderá vir a ser um marcador desta
doença.
O teste de
sensibilidade ao potássio consiste na introdução
separadamente de 2 soluções, uma com água estéril e outra
com potássio. Nos doentes com CI, a solução com potássio
provoca mais dor do que a instilação de água na bexiga.
Porém um teste normal não pode excluir a possibilidade de CI.
A cistoscopia
(observação da uretra e bexiga através de um aparelho
introduzido pela uretra) sob anestesia geral, pode detectar
uma baixa capacidade, úlceras de Hunner, glomerulações
(pontos hemorrágicos). Estas alterações podem ser
evidenciadas após distensão da bexiga com soro e evacuação
do líquido. As biópsias das paredes podem mostrar
espessamento e fibrose e excluir cancro. Porém, a
cistoscopia pode não mostrar alterações (em 60% ou mais dos
casos), apesar de o indivíduo ter todos os sintomas
sugestivos de CI e algumas das lesões descritas também
poderem existir em pessoas sem CI.
A distensão da
bexiga sob anestesia pode aliviar os sintomas durante 3 a 6
meses.
Qual o
tratamento da Cistite Intersticial/Síndrome da Dor Vesical?
Não há
tratamentos definitivos para a CI. Muitos doentes melhoram
com medicamentos ou outros tratamentos não invasivos.
Aqueles que não respondem a estes necessitam de ser
operados.
Modificar o
estilo de vida:
– Dieta: alguns médicos recomendam que sejam evitados
alguns alimentos que parecem agravar os sintomas por
irritarem a bexiga, tais como: álcool, chocolate, café,
bebidas ácidas ou gaseificadas, entre outros.
– Parar de fumar: o tabaco agrava os sintomas e é um factor
de risco para cancro da bexiga.
– O exercício físico parece aliviar os sintomas. O treino
dirigido aos músculos da pélvis e ao controlo da bexiga pode
conseguir diminuir a frequência urinária.
Medicação
oral: heparinóides durante 1 ano ou mais, como o
polissulfato de pentosan - PPS, que se assemelham a
substâncias do revestimento interno da bexiga;
antidepressivos tricíclicos podem melhorar as queixas, por
redução da hiperactivação dos nervos da bexiga; a
gabapentina que também é usada para tratar dor de origem
nervosa, é igualmente eficaz na CI; anti-histamínicos;
anti-colinérgicos; aspirina e outros anti-inflamatórios como
o ibuprofeno, fenazopiridina.
Hiperdistensão hidráulica da bexiga pode dar alívio
temporário das queixas (durante 3-6 meses) em 20% a 30% dos
doentes.
Instilação
vesical (tratamentos com introdução de substâncias
dentro da bexiga)
– DMSO (dimetil-sulfóxido) , um derivado do linhano que é
instilado a cada 2 semanas, heparina, bicarbonato de sódio,
PPS e corticóides como a hidrocortisona, capsaicína,
resinferatoxina, toxina botulinica tipo A, entre outros.
– Neuromodulação sagrada: consiste no controlo das queixas
por alteração do sistema nervoso. O cirurgião coloca um
aparelho implantado debaixo da pele que estimula alguns
nervos sagrados (nervos que saiem da bexiga e que se dirigem
à medula através de orifícios na parte posterior da bacia)
com o objectivo de eliminar o excesso de sensação dolorosa.
Uma variante da neuromodulação é a TENS (estimulação
eléctrica transcutânea de nervos) que não implica a
introdução de dispositivos debaixo da pele mas também usa
pequenas descargas eléctricas através da pele, da vagina ou
do recto com um efeito provável no fortalecimento dos
músculos da pélvis e da bexiga e na libertação de
substâncias que combatem a dor e reduzem a frequência
urinária.
Tratamentos
cirúrgicos da CI (reservados para situações graves que
não respondem aos tratamentos anteriores, correspondendo a
5% dos doentes):
– Desnervação periférica (corte cirúrgico dos nervos da
parede da bexiga) tem uma eficácia mal comprovada .
– Ressecar ou fulgurar as úlceras de Hunner.
– Aumento cirúrgico da bexiga, usando um segmento de
intestino para aumentar o volume e a capacidade do
reservatório da bexiga.
– Em casos desesperados estão descritos casos de cistectomia
(remoção cirúrgica da bexiga), porém esta cirurgia é
polémica, uma vez que há doentes que mesmo sem bexiga,
continuam a descrever dores pélvicas, o que favorece a ideia
de que a doença é uma síndrome dolorosa que atinge a bexiga,
mas não necessariamente com origem neste órgão.
Como pode
evoluir a Cistite Intersticial/Síndrome da Dor Vesical?
A CI tende a ser
crónica, com períodos de sintomas alternando com períodos de
remissão. Até 50% dos doentes pode ter melhoria espontânea
da doença por períodos de 1 a 80 meses mesmo sem tratamento.
A intensidade dos sintomas pode variar de indivíduo para
indivíduo e de uma crise para outra dentro do mesmo
indivíduo. Os tratamentos disponíveis apenas se destinam a
diminuir a severidade dos sintomas, não havendo cura
definitiva da CI.
Publicado em Janeiro 2010
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