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Sobre a bexiga (esse órgão sofisticado) e a continência
A bexiga
armazena urina graças à sua capacidade de mudar de forma e
volume e com o auxílio de um sistema grosseiramente parecido
com uma válvula que abre apenas quando recebe a autorização
de um centro de controle no cérebro. A próstata, um órgão
que envolve os primeiros centímetros da uretra, está
intimamente relacionada com esta “comporta”, contribuindo
para o seu encerramento até à fase de esvaziamento.
Este ciclo de
funcionamento em duas fases que se alternam sucessivamente
está sujeito a um mecanismo de controle complexo que inclui
a regulação por centros cerebrais e confere à bexiga um
carácter quase exclusivamente social – a definição mais
aceite de armazenamento eficaz da urina refere a retenção de
um volume socialmente aceitável a uma pressão baixa sem
hiperactividade do músculo vesical (detrusor) e com boa
competência do esfíncter. Mais, este funcionamento deve ter
uma reserva funcional que permita fazer frente a influências
externas, como por exemplo a tosse e o riso e outras
situações que aumentem rapidamente a pressão no interior do
abdómen.
A perda
involuntária de urina é, por definição, uma perturbação da
fase de armazenamento do funcionamento da bexiga, podendo
ter na sua origem diversos problemas. No sexo masculino, a
incontinência urinária é globalmente menos frequente que no
sexo feminino, especialmente no que diz respeito a perdas
relacionadas com esforço – a presença da próstata e uma mais
firme ancoragem da bexiga na bacia são vantagens
determinantes, não havendo ainda outros factores de risco
importantes como a gravidez e o parto.
Incontinência urinária associada a urgência
A actividade
inadequada do detrusor pode apresentar-se por um conjunto
variável de manifestações, das quais as mais frequentes são
o aumento da frequência das micções e a dificuldade em adiar
uma micção e a mais extrema será a incontinência associada a
estes episódios chamados de urgência ou imperiosidade. No
entanto, este cenário é pouco específico e pode traduzir um
problema próprio do músculo ou dos centros nervosos de
controle, bem como a influência de outras doenças da bexiga
ou da vizinha próstata.
O doente deve
ser inicialmente avaliado para a presença de infecção ou de
tumor, na bexiga ou na próstata, e se alguma destas
condições for diagnosticada deve ser considerado prioritário
o seu tratamento. Um sinal que também pode ser referido por
doentes com qualquer destas doenças é o aparecimento de
sangue na urina (hematúria).
Na ausência de
infecção e de tumor, outras influências externas à bexiga
devem ser consideradas, como doenças neurológicas ou
traumatismos pélvicos.
Finalmente, e
porque nem sempre o que é mais comum deve ser equacionado
primeiro, há que pensar na hiperplasia benigna da próstata e
na hiperactividade intrínseca do detrusor, causas mais
comuns de queixas urinárias irritativas em homens adultos
acima dos 50 anos. O diagnóstico entre estas duas entidades
pode ser mais difícil e o tratamento oscilará entre
medicações mais dirigidas para o crescimento da próstata e
outras mais para a instabilidade da bexiga; na verdade, o
crescimento da próstata pode ser a causa da instabilidade da
bexiga e haverá casos que beneficiem da combinação das duas
linhas de tratamento. Um subgrupo de doentes com próstatas
francamente obstrutivas pode apresentar aquilo que se chama
de incontinência paradoxal: a obstrução é tão marcada que a
bexiga não consegue esvaziar e portanto perde a sua
capacidade funcional, qualquer pequeno aumento da pressão
nesta bexiga sempre cheia vence a resistência do esfíncter e
há saída de pequena quantidade de urina mesmo sem sensação
de vontade.
Em resumo, em
qualquer destes cenários a incontinência deve ser encarada
como uma manifestação de uma doença que importa diagnosticar
para poder tratar.
Incontinência urinária após cirurgia da próstata
A incontinência
acontece com uma relativa frequência em homens submetidos a
cirurgia para tratamento de doenças da próstata. A perda de
urina associada a esforços, tosse e riso é mesmo, no sexo
masculino, uma consequência quase exclusiva de alguma forma
de cirurgia da próstata.
O doente deve
ser esclarecido e preparado para esta possibilidade e deve
compreender, aquando da proposta da intervenção, que pelo
menos temporariamente a incontinência pode ensombrar a sua
qualidade de vida.
A remoção de
toda ou parte da próstata altera o complexo mecanismo da
continência e ainda pode interferir na estabilidade da
bexiga: após a cirurgia, é frequente os doentes apresentarem
algumas dificuldades com a continência, sendo certo que nas
mãos de cirurgiões experimentados este risco é menor (2-4%
de incontinência após prostatectomia radical para tratamento
de tumores malignos, menos ainda na sequência de cirurgias
para tratamento de doenças benignas). A recuperação ocorre
habitualmente de forma espontânea nos primeiros meses numa
grande maioria de casos (até 80% de continência aos 3 meses)
e algumas modificações do quotidiano podem facilitar essa
evolução.
O reforço dos
músculos do pavimento pélvico é uma das medidas mais
recomendadas para acelerar a recuperação da continência, e
consegue-se com a realização de um conjunto de exercícios
que treinam os músculos auxiliares do encerramento da
uretra. Estes exercícios são ensinados ao doente e podem ser
amplificados com sistemas de estimulação eléctrica.
O recurso a
medicamentos pode ser necessário e o grupo dos
anticolinérgicos permite aumentar a capacidade da bexiga e
diminuir a frequência das micções.
Perante a
necessidade de opções mais agressivas, existem diversas
alternativas cirúrgicas, desde a injecção de colagéneo ou
substâncias inertes em redor da uretra até à implantação de
um esfíncter artificial comandável pelo doente, passando
pela colocação de fitas sintéticas que suspendem e comprimem
a uretra.
Publicado em Abril 2010
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