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Os
desenvolvimentos recentes no campo dos materiais
biocompatíveis permitiram o tratamento de situações até há
pouco insolúveis utilizando abordagens reconstrutivas.
Presentemente é possível a substituição de determinadas
estruturas orgânicas por aparelhos sintéticos mecânicos,
permitindo restaurar não só aspectos anatómicos como
igualmente funcionais, o que há apenas algumas décadas era
considerado pura ficção científica.
A colocação
destes aparelhos, denominados próteses, desempenha um papel
em expansão na urologia moderna. Presentemente são
utilizados em 3 grandes áreas: esfíncteres urinários
artificiais para tratamento de incontinência urinária,
próteses penianas para tratamento de disfunção eréctil e
próteses testiculares para substituição de testículos
previamente removidos ou congenitamente ausentes.
Próteses
testiculares
Várias
circunstâncias explicam a ausência uni ou bilateral dos
testículos - ausência congénita ou necessidade de remoção
cirúrgica por torção, traumatismo, infecção ou aparecimento
de tumores, por exemplo.
Vários estudos
publicados demonstram que esta situação se acompanha de
efeitos psicossociais negativos e diminuição da auto-estima.
Os efeitos cosméticos conseguidos com a substituição do(s)
testículo(s) ausente(s) acompanham-se de ganhos em termos
emocionais e altos níveis de satisfação, bem documentados.
Em
termos simples as próteses testiculares não são mais do que
uma bolsa de silicone, com forma, peso e sensação táctil
semelhantes às de um testículo normal (Fig.1).
Actualmente há
dois modelos disponíveis para colocação, ambos de silicone –
um preenchido por soro fisiológico no momento da
implantação, o outro já preenchido previamente – disponíveis
em diversos tamanhos de acordo com o volume pretendido.
É importante
referir que a colocação da prótese se faz unicamente por
motivos estéticos, já que de forma alguma permite substituir
o testículo ausente em termos de função endócrina /
reprodutiva.
A sua
implantação é extremamente simples e rápida. Normalmente é
realizada através de uma pequena incisão a nível da virilha,
em regime de ambulatório, podendo inclusivamente ser
realizada sob anestesia local. Após o procedimento é
normalmente apenas necessária administração de analgésico
oral durante alguns dias.
As complicações
com este procedimento são bastante raras – essencialmente
infecção (< 1 %), hematoma (1-2 %), extrusão (3%), dor
escrotal (3 a 5 %).
A taxa de satisfação global atinge valores consistentemente
superiores a 90%.
Esfíncter urinário artificial
O esfíncter
urinário artificial está reservado para o tratamento de
situações de incontinência complexas, decorrentes de
lesão/deficiência importante do esfíncter natural,
normalmente decorrentes de cirurgia prostática (prostatectomia
radical ou ressecção trans-uretral), traumatismo pélvico,
determinadas malformações congénitas ou situações
particulares de doença neurológica.
O
esfíncter urinário artificial é um dispositivo mecânico que
consiste num manguito compressivo colocado à volta da uretra
(nas crianças e mulheres na porção inferior da bexiga
denominada colo vesical) e num balão de pressão, conectados
a uma bomba que controla os movimentos do fluído do manguito
para o balão e vice-versa (Fig.2).
Em situação de
repouso o manguito está preenchido por fluído, comprimindo a
uretra e como tal impedindo perdas indesejadas de urina.
Quando há necessidade de urinar, a bomba, que é colocada
numa posição acessível (na proximidade dos testículos no
homem ou no lábio vaginal nas mulheres), é activada por
compressão manual fazendo com que o fluído que preenche o
manguito seja encaminhado para o balão. Desta forma, o
manguito deixa de exercer compressão permitindo a micção.
Automaticamente, de forma passiva, passados alguns
instantes, o manguito volta a ficar preenchido, comprimindo
de novo a uretra e garantindo de novo a continência.
A sua colocação
é relativamente simples em termos técnicos, embora exija
alguma minúcia e familiaridade com os componentes, com o
procedimento e com a abordagem de eventuais complicações.
Faz-se a partir de uma incisão única a nível da porção
inferior do pénis ou por duas incisões em separado – uma
entre os testículos e o ânus e outra pequena incisão na
virilha. Após o procedimento é necessário aguardar algumas
semanas para se colocar o esfíncter em funcionamento – o
doente tem alta com o aparelho desactivado.
São contra-indicações para a colocação: infecção urinária,
bexiga de pequena capacidade ou distensibilidade,
hiperactividade vesical não controlada (contracções não
controladas e de grande amplitude da bexiga), doenças que
possam implicar instrumentação urinária repetida – cálculos,
tumores da bexiga, apertos de uretra ou ausência de
suficiente destreza manual para a manipulação do
dispositivo.
Até ao momento
foram colocados mundialmente cerca de 95000 esfíncteres
urinários artificiais. Em termos de resultados pode dizer-se
que globalmente entre 75 e 95 % dos doentes melhoram muito
substancialmente, cessando as perdas urinárias ou alcançando
aquilo que pode ser definido como incontinência socialmente
aceitável (necessidade de usar apenas 1 penso/dia). Uma vez
que se trata de um dispositivo mecânico, para além das
complicações inerentes a qualquer cirurgia
(infecção/hemorragia, etc), poderão ocorrer falhas
mecânicas, que necessitarão de reintervenção. Numa
perspectiva realista, será espectável que aos 5 anos após
implantação 90 % dos doentes sejam portadores de um
esfíncter funcionante, com uma taxa de necessidade de
revisão de cerca de 25%.
Próteses penianas
A disfunção
eréctil é definida como a incapacidade de alcançar ou manter
uma erecção suficientemente rígida para uma relação sexual
satisfatória. Hoje em dia há várias abordagens para este
problema. Actuação a nível dos factores de risco (cessação
tabágica, perda de peso, exercício físico, etc.), fármacos
orais, uso de bombas de vácuo, injecções intra-cavernosas ou
medicação intra-uretral são hipóteses de tratamento que
deverão ser contempladas inicialmente.
Quando todas
estas abordagens terapêuticas falham ou estão
contra-indicadas, as próteses penianas podem conseguir
restabelecer a capacidade eréctil.
Trata-se de dispositivos amplamente testados – nos EUA em
1996 foram implantadas 21000 próteses por exemplo – e
calcula-se que anualmente se implantem entre 20000 e 30000.
Contudo, o tipo de prótese a implantar deve ser muito bem
ponderado caso a caso, levando em linha de conta aspectos
como características do doente a tratar (doenças associadas,
destreza manual, expectativas, perfil psico-social, etc.),
facilidade de utilização, perfil de complicações, preço e
preferências do doente por exemplo.
São dispositivos
totalmente implantados no organismo. Basicamente consistem
em cilindros inseridos no interior dos corpos cavernosos
(tecido responsável pela erecção). Nesse sentido é
necessário salientar que a sua colocação implica a
destruição do tecido cavernoso, pelo que deverá ser encarada
como solução irreversível.
Para efeitos
práticos existem actualmente dois tipos de próteses:
semi-rígidas e insufláveis.
As
prótese semi-rígidas consistem em 2 cilindros de silicone
cuja composição interna varia de modelo para modelo (Fig.3).
A sua implantação é bastante simples, são bastante fiáveis e
dependem pouco da destreza manual para a sua utilização.
Embora sejam muito facilmente utilizáveis, produzem um
estado de erecção permanente, não fisiológico. São
manuseáveis no sentido de serem ocultadas no dia-a-dia.
As
próteses hidráulicas mais simples (dois componentes)
consistem em cilindros ocos conectados a uma bomba /
reservatório que, à semelhança do que acontece com o
esfíncter artificial, permite insuflá-los. A activação da
bomba faz com que uma determinada quantidade de fluído seja
encaminhado para os cilindros causando uma erecção. Quando
necessário, a bomba permite esvaziar os cilindros. As
próteses hidráulicas de 3 componentes (Fig.4) são compostas
por dois cilindros, uma bomba e um reservatório
independente. Nestas, uma muito maior quantidade de fluído é
transferido do reservatório para os cilindros e vice-versa.
Este tipo de próteses proporciona resultados funcionais em
termos de erecção / flacidez muito mais semelhantes aos
fisiológicos.
Todas estas
próteses são normalmente implantadas sob anestesia geral.
Geralmente é realizada uma pequena incisão a nível da base
do pénis. São procedimentos relativamente simples, embora a
complexidade varie em função do tipo de prótese. Não é
removido qualquer tecido, embora seja necessário proceder à
destruição do tecido eréctil para a colocação dos cilindros.
As perdas sanguíneas são mínimas e habitualmente o doente
tem alta no dia seguinte à cirurgia.
Habitualmente a
recuperação é rápida, embora possa haver algumas dores
durante algumas semanas, usualmente controláveis com
limitação da actividade física e medicação oral. É
necessário aguardar algumas semanas (usualmente 4 a 6
semanas) até que a actividade sexual possa ser retomada e
este período varia em função do tipo de prótese implantada,
do processo de cicatrização em curso e da sintomatologia
presente.
Como
complicações mais graves há riscos inerentes de infecção /
erosão (1-3 %), usualmente implicando a remoção do
dispositivo e falha mecânica (<15% aos 5 anos) implicando
reintervenção).
Os estudos
disponíveis revelam um elevado grau de satisfação dos
doentes, particularmente no que se refere às próteses
hidráulicas de 3 componentes.
Publicado em Janeiro 2010
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