Tumores do
Pénis
Pedro José Soares dos Santos –
Assistente Hospitalar – Hospital Garcia da Horta
|
O cancro do
pénis na europa e na américa do norte é uma doença rara
(incidência é de 0,1 a 0,9 por 100.000 habitantes), onde a
existência alargada de redes sanitárias, o nível de vida e a
cultura da saúde das populações favorecem os bons hábitos de
higiene – cruciais para prevenir o aparecimento da doença.
Enquanto que em países sul-americanos e africanos representa
cerca de 12% dos tumores que atingem o homem, chegando mesmo
a superar em número as neoplasias da bexiga e da próstata.
As lesões do
pénis podem ser classificadas em benignas, pré-malignas e
malignas.
A variedade de
lesões benignas que pode ocorrer no pénis inclui as de
origem cutânea (papilomas coronais e balanite de Zoon) e as
de origem mesenquimatosa (quistos, fibromas, angiomas,
lipomas, miomas, etc.).
As lesões do
pénis pré-malignas (com potencial de malignização ou de
forte associação a doença maligna) são o corno cutâneo, a
balanite xerótica obliterans e a leucoplaquia. O corno
cutâneo apresenta-se como uma protuberância queratinizada,
que se desenvolve sobre uma lesão prévia e que tem como
terapêutica a excisão cirúrgica. A balanite xerótica
obliterans surge na glande ou no prepúcio como uma mácula ou
uma fina placa esbranquiçada, que pode mesmo atingir o meato
uretral e a uretra, sendo o tratamento com corticoides
tópicos ou cirúrgico dependente da extensão da doença e suas
complicações. A leucoplaquia aparece, mais frequentemente em
doentes diabéticos, sob a forma de uma placa esbranquiçada
na proximidade do meato uretral, recomendando-se como
terapêutica a excisão cirúrgica associada a circuncisão.
As lesões
malignas podem ser divididas em lesões primárias e
secundárias.
A lesão
secundária ou metastática, embora rara deverá ser
equacionada quando ocorre priapismo (erecção prolongada,
dolorosa, não associada a estimulo sexual) ou quando surge
um ou mais nódulos indolores no pénis em doentes com tumor
avançado da próstata, bexiga, cólon ou rim.
As lesões
primárias mais frequentes subdividem-se em: neoplasia
intra-epitelial (eritroplasia de Queyrat ou doença de Bowen),
carcinoma Verrucoso (Buschke-Lowenstein) e carcinoma
espino-celular.
A neoplasia
intra-epitelial (Cis) do pénis é uma lesão bem limitada,
aveludada e avermelhada que se caracteriza microscopicamente
por múltiplas mitoses atípicas, perda da polaridade celular,
nucléolos múltiplos e hipercromáticos e permanência intacta
da membrana basal. Quando o Cis envolve a glande, o prepúcio
ou a haste peniana denomina-se eritroplasia de Queyrat (fig.
1) e Doença de Bowen se envolver a restante genitália ou o
perineo. A taxa de progressão para doença invasiva é de 10%
a 33% para a eritroplasia e de 5% a 10% para a doença de
Bowen. A terapêutica costuma envolver a remoção cirúrgica
(margem cirúrgica de 0,5 cm) ou a destruição da lesão
empregando 5Fu creme, laser (YAG), rádio ou crioterapias. |
|
O carcinoma
verrucoso (Buschke-Lowenstein - fig. 2) tem uma configuração
papilar proeminente, e como características histológicas
apresenta uma ampla frente de invasão e atipia citológica
mínima. É frequente a associação à infecção pelo vírus
papiloma humano (HPV) do tipo 6 e 11. As metástases são
raras e em lugar disso, esses tumores definem-se por
crescimento indolente e recorrências locais numa taxa de até
80%. A terapêutica poderá envolver excisão cirúrgica, laser
ou crioterapia. O tratamento agressivo com radiação pode ser
prejudicial, com subsequente desdiferenciação para formas
mais agressivas.
O carcinoma de
células escamosas ou Espino-celular é responsável por mais
de 95% de todos os tumores malignos do pénis. Surge
habitualmente a partir dos 60 anos de idade e é duplamente
mais frequente na raça negra. A maioria dos casos
apresenta-se em homens não circuncidados e com poucos
hábitos de higiene. Estudos clínicos demonstraram que o
factor crucial é a presença de esmegma (restos celulares, de
urina e de esperma colonizados pelo Mycobacterium Smegmatis)
que se colecta sob o prepúcio com a falta de higiene. Outro
factor de risco importante é a infecção pelo HPV (tipos 6,
11, 16, 18 e 30), que se associa ao tumor em cerca de 22% a
63% dos casos. Estes factores de risco poderão ser evitados
com a implementação de bons hábitos de conduta sexual
consciente e pelo uso do preservativo.
O carcinoma
espino-celular é constituído, mais frequentemente, por
células pouco diferenciadas, com padrão de crescimento
vertical, com áreas de necrose, de invasão perineural e
vasculares, o que resulta na tendência a altas taxas de
propagação local e metastática. |

Fig.1-
Eritroplasia de Queyrat.

Fig. 2 – Tumor
Verrucoso

Fig. 3 –
Carcinoma Espino-Celular do Pénis |
|
A apresentação
clínica não é de uma lesão subtil, mas sim facilmente
reconhecida pelo doente sob a forma de uma lesão nodular ou
de uma ferida (fig.3). No entanto, muitas vezes os pacientes
demoram 6 ou mais meses para recorrer ao médico,
simplesmente por vergonha. Frequentemente, a super infecção
bacteriana ou o endurecimento da lesão decorre de tentativas
de auto medicação. A maioria das lesões está presente na
glande (48%) e no prepúcio (21%) e menos frequentemente no
sulco (6%) ou na haste peniana (<2%).
O aumento de
volume dos gânglios inguinais surge na apresentação inicial
em 58% dos pacientes, mas menos de metade destes demonstram
ser metástases. Muitas vezes, o efeito de massa presente na
palpação deve-se à inflamação dos gânglios inguinais por
infecção do tumor. As metástases ganglionares quando
presentes, são o mais importante factor de prognóstico. A
disseminação linfática faz-se por embolização envolvendo, em
primeiro lugar os gânglios inguinais superficiais, depois os
profundos e posteriormente os pélvicos e podem-se complicar
de necrose da pele, de sépsis ou de hemorragia. A
metastização hematogénica é pouco frequente (1 a 10%) e só
possível quando conjuntamente com envolvimento dos gânglios
pélvicos. |
|
Na presença de
uma lesão suspeita no pénis, o primeiro passo será a
caracterização quer da lesão primitiva (morfologia,
dimensões, localização e mobilidade), quer da adenomegália
inguinal caso exista, seguido da realização da biopsia da
lesão que permite obter o diagnóstico de tumor e a sua
profundidade.
O sistema de
estadiamento mais preciso a descrever o tumor e o grau de
invasão é o sistema TNM (Quadro 1) do American Joint
Committee on Cancer (AJCC). O sistema TNM classifica os
casos em estádios de I a IV sendo que a maioria dos
pacientes apresenta-se em estádio I e II.

Quadro
1 – Classificação TNM do AJCC
|
O tratamento de
escolha para tumores ≥pT2 é a penectomia parcial (fig. 4),
sendo defensável a realização de procedimentos conservadores
(tais como: cirurgia micrográfica de Mohs, circuncisão,
laser e radioterapia) para doentes com lesões pTa e pT1
passíveis de vigilância oncológica rigorosa.
A
linfadenectomia inguinal (excisão cirúrgica dos gânglios
inguinais) é um procedimento cirúrgico com alta taxa de
complicações (30% a 40%), mas que demonstra ser curativo
mesmo na presença de adenopatias inguinais, assim sendo é
recomendado a sua realização sempre que persistir
adenopatias inguinais móveis (após o doente ter efectuado 6
semanas de antibioterapia), e na ausência de adenomegálias,
quando o tumor for pT1 GIII ou ≥pT2.
A
doença tende a recorrer principalmente nos dois primeiros
anos, pelo que a vigilância deverá ser realizada nesta
altura de dois em dois meses, de seis em seis meses no
terceiro ano e posteriormente anualmente. O exame objectivo
é fundamental, recorrendo-se a exames complementares se
suspeita clínica. |

Fig.4 – Penectomia Parcial
(técnica cirúrgica) - Margem livre de tumor de 2 cm.
|
|
Publicado em Janeiro 2010
|
|
|